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Quinta-feira, 16 de Julho de 2009

O Afinador de Silêncios


Antes de Nascer o Mundo, o título dado pela Companhia das Letras me agrada, embora todas as outras nações de língua portuguesa concordaram com Jerusalém. Prefiro o título brasileiro para o livro do moçambicano Mia Couto. O livro fala da distância de um mundo antes do tudo ser, do ermo que habita a condição humana e também de seu calor verdadeiro. Começa assim : "A primeira vez que vi uma mulher tinha onze anos e me surpreendi subitamente tão desarmado que desabei em lágrimas. Eu vivia num ermo habitado apenas por cinco homens. " Isso me lembra Gabriel Garcia em Cem Anos de Solidão, mas Mia Couto respira naturalmente a linguagem de Guimarães. Lá do outro lado do Atlântico num continente onde a literatura emerge da terra, tanto mais para um autor sensível como Mia Couto. A poesia, a graça, o jogo implacável de setenças visuais dá a Mia Couto a posição de contador encantado de histórias, a história com o tempero raro hoje, o da narrativa, viva, visual. Seu regionalismo é universal, como aprendeu com Guimarães Rosa, isso com certeza não é uma comparação. Gumarães é o mestre absoluto, tanto que Mia Couto usa apenas pinceladas Rosaneanas, não exagera no tempero pronto e sim prepara tudo com simplicidade e com muita habilidade. Mia Couto agrada, traz prazer e conta uma história onde se pode encontrar a humanidade verdadeira e desacreditada por muitos de nós.

Terça-feira, 14 de Julho de 2009

Vai Passar Chico Buarque?





Edna O`Brien disse mal de Chico, por trás é claro, disse de Milton Hatoum também, assim afirma o deslustrador do Diogo Mainardi. A festejada escritora inglesa resmungou da empáfia de Chico e de seu molejo para levar a platéia inepta a aceitá-lo como um grande nome da nossa literatura. Chico Buarque é evidentemente um nome em nossa literatura, literatura cantada como ele poucos fizeram. Mas o que sugere Edna O`Brien é o que todos nós sabemos: Chico Buarque é um filhotão da indústria editorial com o selo de boa qualidade emplacado por sua história musical. O mais triste disso é o parâmetro indiscutível que compõe o meio editorial, porque se há escritores melhores que Chico não há dúvida, mas o mercado não os aceita. Chico pode por o título de Café com Leite Derramado em Budapeste que vai vender, aliás achei esse título muito melhor que frases inteiras de certos jornalistas por aí. Na verdade eu mereceria o lugar de alguns gougres sem letra e sem samba por aí. Mas vá lá. Chico Buarque é o nosso Chico de músicas que me fazem mais bem que qualquer analgésico. Mas agora, Chico Buarque na literatura, parece ser algo menor, no sentido moral da coisa toda, porque escritores ralam por um nicho, barganham, usam todos os recursos de criatividade e param na esfera do marketing, da logística, triste. Ser Chico deve ser bom, ou Jô Soares ou Britiney Spears porque se lançam muco no mercado vendem. Se Chico lançar um livro apenas com as melhores fotos dos seus olhos azuis vai vender, e é isso a causa do mal estar de Edna O` Brien, mesmo sem saber. Esse pessoal da era dos festivais enjoaram de tanto compor, e se protestos não valem mais pra nada que viva a empáfia e os livros médios e chatos.

Sábado, 11 de Julho de 2009

Tobias Lolness-A vida na Árvore


Timothé de Fombelle tem logo de cara uma estréia fantástica na fantasia. O Di Zeit disse: "“Uma resposta encantadoramente francesa ao fenômeno Harry Potter.” E sim, é um encanto de literatura infanto-juvenil. “Você nunca mais olhará para uma árvore da mesma forma depois de ler Tobias Lolness. Um sucesso extraordinário.” Le Figaro. As surpresas de Tobias Lolness transformam a árvore em universo encantador e cheio de possibilidades. A árvore é o universo assim como nós e tudo. Não há medidas exatas.

Nesse livro de estréia o francês Thimothé de Fombelle, nascido em 1973, Tobias Lolness – A vida na Árvore, consagrou-se como um dos maiores sucessos da literatura juvenil francesa nos últimos anos. Um grande escritor. Ganhador de sete prêmios literários em seu país de origem, entre eles o Tam-Tam, o Sorcières, o Saint Exupéry e o Grand Prix de l’Imaginaire, e outras 10 distinções em todo o mundo, entre elas o prêmio Andersen, o mais instigante da literatura infanto-juveni,l na Itália o livro foi apontado como o melhor romance infanto-juvenil francês na lista de honra da IBBY (International Board on Books for Young People) em 2008. Com direitos de tradução vendidos para vinte países, Tobias Lolness – A vida na Árvore chega ao Brasil pela Editora Rocco. A editora Rocco tem mostrado muito empenho e versatilidade em trazer títulos como esses, onde na verdade tudo está além de uma simples árvore, porque nenhuma árvore é simples como veremos nessa história fascinante.
Tobias Lolness é o protagonista de13 anos e apenas um milímetro e meio que vive na Árvore uma aventura brilhante e divertida sobre sobrevivência, resistência, coragem e amor. O herói microscópico em tamanho, demonstra que grandes qualidades e inteligência estão além do corpo. Através da história deste menino por um complexo mundo em miniatura, o autor reflete sobre questões ecológicas, políticas e sociais e deixa uma importante mensagem de ética e tolerância, em meio a uma grande aventura. Tobias será obrigado a enfrentar todo tipo de perigo e ameaças, mas também conhecerá a felicidade e aprenderá muito mais sobre ele próprio, o outro e o mundo em que vive em sua inspiradora trajetória. A árvore cresce como um universo de possibilidades e Tobias representa a busca e a coragem do espírito da boa vontade.

Tobias Lolness é um romance incrível, que se alinha entre as raras obras capazes de cativar tanto o público infantil quanto o adulto, como O senhor dos anéis, As crônicas de Nárnia, As aventuras de Gulliver ou a série dedicada a magia de Harry Potter.
A Árvore em que o microscópico herói de um milímetro e meio de altura vive é uma metáfora evidente do planeta Terra. Evidente, porém, elegante e sutil. A aventura contagiante segue com uma narrativa agradável, repleta de criatividade e efeitos visuais, esses que o cérebro infantil ou adulto produzirá com prazer.

Lobo Bom


"É o livro que tem que ser inteligente e não o autor."


Se Lobo Antunes decidisse viver no Brasil haveria dois oceanos entre ele e Saramago. O Atlântico e o Literário. Li Saramago e Lobo, e Lobo venceu, digamos por pontos abundantes. Já o que gosto de Saramago é o seu desprezo, a sua indiferença e descrença e mais o Evangelho Segundo Jesus Cristo, no mais são idéias mirabolantes com uma carga de narrativa pedante. Lobo, no entanto, tem ginga, poesia, e é solidário ao leitor, o deixando navegar pelo Oceano de suas palavras. E sobretudo é uma simpatia, um boa praça ao estilo de Vinicius de Moraes e encantado pelo nosso país. Gosto, enfim, de Lobo porque ele sabe voar e de Saramago porque não sabe e não liga, e não ligou mesmo antes do Nobel. Gosto dos dois mas o lobo uiva e encanta.

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009







É estranho quando uma figura como Michael morre. Sua contagiosidade passa por muitos como nula, mas a fama de sua figura é como um vírus resistente que não afeta o organismo de todos mas sim a memória. Eu não me lembro de ter me empolgado com Michael, mas sua existência não me passou desapercebida e sua figura parece mais clara e próxima que a de minhas boas primas de Minas Gerais, e olhe que as toquei e as beijei talvez... Por isso é estranho, não há sentimentalismo e sim estranheza. Algo oblíquo e com um final amargo de desesperança.


Talvez Jesus fora uma espécie de Michael, sua fama repercutiu por seus feitos, naturalmente, mas muito mais pelo poder de comunicação e depois a bela imagem sofrível empregada pela Grande Firma Católica. A imagem unida ao som faz o mito. Jesus teinha as parábolas e Michael os hits e imagem nem precisamos falar. Era um personagem real que superou muitos seres irreais. De longe superou Branca de Neve dos irmãos Grimm, mesmo Frankestein de Mary Sheley fica pra trás de longe. Se procurarmos um ser semelhante a Michael encontramos Michael certamente. Mas talvez haja um exemplo próximo o fantástico Edward Mãos-de-Tesoura de Tim Burton. Não só pela superficialidade, mas pelo aspecto frágil e ao mesmo tempo ousado, pela bizarra aparência e o comportamento infantil.


Para os que confundem Michael a verdade é que ele foi um verdadeiro mito, cheio de excentricidades oriundas de seu interior confuso, cheio de talento evasivo, desses que se espalham pelo mundo como a peste negra. Esse homem estranho sofreu a metamorfos e encontrou talvez imbecibilidade e solidão. O rei do pop. O menino negro que perdeu a raça, perdeu o sexo, como numa vontade de se tornar anjo morreu, normalmente, como todos morrem desde o início de nossos tempos. O sol continuará a brilhar e muitas pessoas vão lucrar alto e agradecer ao último mito musical por ter morrido no momento exato para que o show business de sua imagem e som prospere. O mito tem que saber morrer também, é isso o mais incrível neles.

Sábado, 20 de Junho de 2009





Não sei. Olho essa face jovem, esses olhos repletos de noites guardadas, secretas. Fumaça de diversos odores, vozes em sua maior parte felizes, de todos os cantos. Estamos sentados esperando que algo de novo aconteça e nada falamos. É mais um dia, já perdemos o encanto inaugural de Deus diante desse fenômeno, mas ela sabe que em mim há ainda encantamento. Sei porque me olha desse jeito. O dia em que me falou a boca de um escritor só criará suspiros bons entre minhas pernas, isso foi bom, me fez sorrir me fez fumar cigarros e querer engolir o mundo todo por amá-lo.Estamos ali, na velha estação da Luz, é um bom lugar. Uma estação onde podemos deixar a imaginação ir. Vamos pegar o trem, um vagão rico e estofado para nós. Vamos nós amar nele, criar manchas irreparáveis. Vamos trazer ao mundo um novo ser acima do amor de Cristo, um amor insuportável que faça com que a humanidade se esqueça de sua civilidade e torne-se natural. Vamos! Mas os olhos dela continuaram quietos, num silêncio de catedral. Eu não falo, eu escrevo, eu rio até, mas não falo. O trem que chega não parece sustentar os meus desejos. Estou alto nos desvãos do sonho e dos delírios. Ela me olha com um sorriso esgotado. Isso me faz agir abrindo os braços e apertando ela depois, costelas, pulmões, a pele se estica. Na próxima estação descemos as pessoas olham ou não. Ao entrarmos no corredor estreito que dará ao apartamento dela a pressiono na parede. Diga! Diga! A boca de um escritor só criará suspiros bons entre minhas pernas. Obrigado. Um cão ladra, o ar está macio, há uma paz de aquário vazio em tudo. Quando no ar explode a sensível bolha de gozo acredito em Deus, acredito em mim e amo a vida.

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

GRANDE PAU







- Papai, quem descobriu o Brasil?


O pai fez uma careta porque não sabia mentir.


- Ninguém sabe ao certo, filho.


O menino fez outra careta.


- Mas papai todo mundo sabe que foi o Cabral!


O pai fechou o facho e se dirigiu para o menino:- Filho, eu sei que gosta dos portugueses, mas quem descobriu o Brasil foram os espanhóis.


O menino olhou pro pai e o achou maluco.


- Mas todo mundo fala português aqui, Pai.


- Sim, porque aquela raça de merda foi a única a querer alguma coisa daqui.


- E o que eles quiseram , pai?


- O pau do Brasil. É, os portugueses levaram muito pau do Brasil. Mas tudo tem seu preço e muitos deles foram comidos.


- Comidos, Pai?!


- Sim, levaram pau e depois foram comidos e depois comeram também.


Ah, ah ah...ai...ai...


- Ô, Antônio, o que tá dizendo pro menino, ô xarope.


- É história. Esse menino quer saber de tudo, pergunta pra Deus rapaz.


- Ô Antônio!


- É o Google, vai lá que ele responde tudinho.


- E o que eu digito, Pai?


- O quê? O que quer saber?


- Quem descobriu o Brasil.


- E você não sabe?Pedro Álvares Cabral.


- Mas o senhor disse...


- Ah, mas isso é o que aconteceu há muito tempo, se você colocar no trabalhinho a anta da professora te dá pau


.- Para de falar de pau, Antônio!


- Eu estava falando de pau brasil aquela hora, e de antropofagia e de... ah, deixa quieto.


O menino encolheu os bracinhos e se retirou como um índiozinho.

Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

ENLATADOS



Sabe quando se pensa em leopardos das neves enlatado com a multidão egoísta e proletária de trens do metrô. Talvez você não saiba, mas a manhã paulistana é uma das manhãs mais medíocres do mundo.Gente aos borbotões. Olhamos aqueles braços humanos, aquelas cabeças com cérebros de atum...Putz! Da vontade de ser o leopardo das neves no silêncio assovioso da montanha gelada. Ô se dá! De certo modo sou como ele, frio, no alto de minha pessoalidadeUm escritor não escapa de si, nem confundido em meio a multidão espremida, sufocada e ruim. O escritor não foge de si, mesmo que interprete com toda a habilidade. Às vezes me sinto um Peter Parker, um cara escondendo uma máscara no bolso, mas é o contrário.Nossas estações de metrô são realmente muito limpas, mas tudo está mal e sujo, tudo parece errado naqueles cérebros de atum. Não dá pra engolir e a gente engole mesmo assim, só pra rir de tudo que vê e vive, por quê? Vive de verdade um leopardo das neves.

emaranhadiços

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