É incrível pensarmos que se em tudo houvera uma evolução tamanha que o mundo de hoje comparado ao do séc XIX é absurdamente diferente, na literatura algo acontece. Nesse mundo alienígena do séc XIX, se nos defrontarmos com ele, é assim que vamos vê-lo, tão distinto, tão obsoleto que só poderíamos nos sentir aliens. Mas por um lado algo prevalece, o humano, o mais importante, enfim. Nossos desejos, nossas mediocrídades, nossa virtudes, isso tudo não mudou em sua essência. Os modos em geral mudaram, é óbvio que em uma sociedade permissiva como a nossa, de um capitalismo marcante e funcional, há de gerar indivíduos supérfluos e relaxados, até no sentido bom da palavra... Ao me deparar com os personagens de Dostoiévski é implícito a modernidade elegante, que perdura até hoje em poucos indivíduos, e a liberdade ponderada, que no caso, deu lugar a uma promiscuidade alienígena e débil. Pegando a novela O Jogador como exemplo, que é um livro menor do mestre russo, que não podemos nem querer comparar com O idiota, Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov, mas nessa novela há incrivelmente muito do homem contemporâneo. e por isso Dostoiévski é imortal e universal. Incrível isso. Um homem como Dostoiévski ,que morreu em 1881, poder ser um prazer e uma referância na prosa em 2012. Um mestre imortal por mérito. Sua estrutura é exepcional, e sua noção do ser humano o qual revelava em seus trabalhos transpõe as limitações tecnológicas, comportamentais e institucionais da sociedade. Após tanto tempo de sua morte, nós, escritores contemporâneos temos que nos debruçar com humildade sobre livros "menores" como O Jogador, para assim termos chances de criarmos nossos "grandes" livros mortais contemporâneos.
sábado, 18 de fevereiro de 2012
Jogador
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Hostel
Se me perguntarem o que achei de O Albergue, vou dizer é legal. Talvez porque a pergunta venha de um desavisado que nunca leu nada e esse cinema é feito pra gente preguiçosa mesmo. Mas para outras pessoas poderia dizer: É cômico , patético e com a meia hora final exuberantemente assustadora. O mais interessante talvez seja a reflexão que me causou. Porque o filme é visto por todos com um distanciamento, como se aquilo fosse apenas um exagero cinematográfico do diretor Eli Roth com a produção e centenas de palpites, sem dúvida, de Quentin Tarantino. E é claro um exagero, um entretenimento trash sim. Mas as pessoas esquecem em que mundo vivem. Esquecem que a realidade é sempre mais surpreendente. Por exemplo, nenhum roteirista pensou em um filme de terroristas que atacassem os EUA do modo que aconteceu em 11/9/01. A realidade é mais densa e cruel com suas surpresas. Por isso não dúvido que coisas estranhas aconteçam na cinzenta Eslováquia ou em Campinas, sei lá. Por isso, aconselho, saia de casa como um lobo e não ria demais em suas viagens para não perder a intuição da maldade que espreita por todos os cantos.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
A Ingenuidade e o Sentimental no Romance
Li há pouco um artigo de Orhan Pamuk, o Nobel turco de literatura, publicado na revista Píaui o texto revela o comportamento do leitor diante o exercício de leitura de um romance. Pamuk cita ainda um ensaio de Schiller, onde ele distingue dois tipos de criadores: o Inocente e o Sentimental. Indicando que a mente de cada um estrutura a narrativa ao seu modo, a obra literária, de dois modos diferentes. E isso se dá tanto para o escritor como para o leitor que depois a descobre. O exemplo de Goethe, Cervantes, Shakeaspeare como escritores inocentes está no sentido de que suas elaborações são feitas sem um cálculo intelectual, sem uma abordagem da forma e dos manejos apropriados para a composição de um texto que afete as pessoas com poder e possa ser considerado um bom texto. Diferente de autores, como ele próprio Schiller, que se inclui entre os autores reflexivos sentimentais. Lendo o artigo me vi chegando a um ponto em que o reflexivo se amiga do inocente, mas acredito que quando escrevo prevaleça o ingênuo, que constrói com espontaneidade e cria efeitos que não percebe no sentido do trabalho e da habilidade cerebral de manipular a elaboração.
Abaixo segue um trecho muito oportuno do artigo, intitulado Ler um Romance
“... Transformamos palavras em imagens mentais. O romance conta uma história, mas não é só uma história. A história emerge, pouco a pouco, de muitos objetos, descrições, ruídos, conversações, fantasias, lembranças, informações, pensamentos, eventos, cenas, momentos. Ter prazer com um romance é desfrutar o ato de partir de palavras e transformar essas coisas em imagens mentais. Ao visualizar na imaginação o que as palavras nos dizem(o que elas querem nos dizer), nós, leitores, completamos a história. Com isso, impelimos nossa imaginação, procurando descobrir o que o livro diz ou o que o narrador quer dizer, o que supomos que ele está dizendo – em outras palavras, tentando encontrar o centro do romance.”
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Biutiful
Biutiful é um drama ao meio-fio. É a narrativa da dor intermitente que impele o espectador à crueza sufocante da realidade. Ou a realidade narrada. Não há espaços para a esperança no mundo de Inárritu. Tudo é o caos. E não está ele certo?Embora haja a nostalgia do encontro pós-morte do protagonista com seu pai, morto ainda muito jovem. Mas veja que a cena terna, com um tom, drama bloockbuster só acontece após a morte. Na vida tudo é duro, cru, mesquinho e sem saída. O protagonista se encontra em estado terminal, a mulher é bipolar e tudo piora mais e mais, como uma atração da desgraça natural.A fotografia é bela, crua e obviamente triste. As alegrias no filme incomodam mais que as tristezas, pois elas são alegrias fugidias, falsas, que passam céleres em personalidades massacradas pela vida dura e egoísta.
O longa de Alejandro Gonzalez Inárritu não supera, em minha opinião, Amores Brutos e Babel. Amores Brutos com sua narrativa não linear e dividida em diversas narrativas focadas em dramas dos personagens que se encontram de maneira inusitada e extraordinária, para montar perfeitamente o mosaico da história, que não é uma e sim múltiplas. Babel é um filme espetacular também.
Biutiful, por sua vez, será melhor para aqueles que não gostam de manejos narrativos não lineares, e sobretudo a atuação de Javier Bardem já valeria por si só a pena.
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Marina
"O talento visionário de Zafón para contar histórias é um gênero literário em si" – USA Today
Antes de lançar o best-seller mundial que o consagrou, com mais de 10 milhões de exemplares vendidos, Carlos Ruiz Zafón já tinha escrito diversos outros livros no início de sua carreira.
Dentre esses, Marina, que já contém alguns dos traços estilísticos presentes em A Sombra do Vento, é o último antes do grande sucesso literário de Zafón.
"De todos os livros que publiquei, Marina é um dos meus favoritos", afirma Zafón. "É possivelmente o mais indefinível e difícil de categorizar de todos os romances que escrevi, e talvez o mais pessoal de todos eles.
Neste livro, Zafón constrói um suspense envolvente em que Barcelona é a cidade-personagem, por onde o estudante de internato Óscar Drai, de 15 anos, passa todo o seu tempo livre, andando pelas ruas e se encantando com a arquitetura de seus casarões.
É um desses antigos casarões aparentemente abandonados que chama a atenção de Óscar, que logo se aventura a entrar na casa. Lá dentro, o jovem se encanta com o som de uma belíssima voz e por um relógio de bolso quebrado e muito antigo. Mas ele se assusta com uma inesperada presença na sala de estar e foge, assustado, levando o relógio. Dias depois, ao retornar à casa para devolver o objeto roubado, conhece Marina, a jovem de olhos cinzentos que o leva a um cemitério, onde uma mulher coberta por um manto negro visita uma sepultura sem nome, sempre à mesma data, à mesma hora.
Os dois passam então a tentar desvendar o mistério que ronda a mulher do cemitério, passando por palacetes e estufas abandonadas, lutando contra manequins vivos e se defrontando com o mesmo símbolo - uma mariposa negra - diversas vezes, nas mais aventurosas situações por entre os cantos remotos de Barcelona. Tudo isso pelos olhos de Óscar, o menino solitário que se apaixona por Marina e tudo o que a envolve, passando a conviver dia e noite com a falta de eletricidade do casarão, o amigável e doente pai da garota, Germán, o gato Kafka, e a coleção de pinturas espectrais da sala de retratos.
Em Marina, o leitor é tragado para dentro de uma investigação cheia de mistérios, conhecendo, a cada capítulo, novas pistas e personagens de uma intrincada história sobre um imigrante de Praga que fez fama e fortuna em Barcelona e teve com sua bela esposa um fim trágico. Ou pelo menos é o que todos imaginam que tenha acontecido, a não ser por Óscar e Marina, que vão correr em busca da verdade - antes de saber que é ela que vai ao encontro deles, como declara um dos complexos personagens do livro.
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
domingo, 13 de novembro de 2011
O CEMITÉRIO DE PRAGA
Os Protocolos dos Sábios de Sião são tidos hoje em dia como uma fraude, esteve presente m alguns pontos importantes da história desde que surgiu. Foi utilizado pela polícia secreta do Czar Nicolau II (como modo de reforçar a posição desse) e anos depois por Adolf Hitler, para justificar a perseguição aos judeus. O texto é uma espécie de ata de uma assembléia na qual judeus e maçons se encontram para planejar a dominação mundial, através do acúmulo de riquezas, entre outras metas. A questão é que a autoria dos Protocolos é bastante nebulosa: não se sabe ao certo quem escreveu, até porque para alguns parte do documento é cópia de outros escritos, sendo adicionado ao texto o elemento antissemita.
O que Umberto Eco faz com seu O Cemitério de Praga (lançado no Brasil pela Editora Record) é criar um romance usando como premissa justamente esse caráter misterioso e tom de teoria de conspiração que envolve Os Protocolos dos Sábios de Sião. É por si só um prato cheio para uma excelente trama, que não deve nada para aqueles que gostam de histórias que envolvam complôs, espionagens e outros elementos de narrativas similares.
O charme de O Cemitério de Praga é que as personagens de Umberto Eco realmente existiram. Tirando o narrador, toda a galeria de figuras que vão desde “Fröide” (sim, Freud) até o escritor Alexandre Dumas. São tantas personagens e tantos fatos históricos abordados nas páginas do diário de Simone Simonini que para o mais leigo sobre esse período é inevitável diversas pesquisas sobre essas figuras e momentos. Mas não pense que isso é um enfado: Eco as retrata de tal maneira que é realmente a curiosidade que leva o leitor a querer saber mais sobre isso.
A narrativa apresenta três pontos de vista diferentes, e nisso dá para dizer que um outro mistério se constrói além do que envolve Os Protocolos. Temos um narrador (texto em negrito), e além disso temos o diário de Simonini, que de quando em quando é “invadido” por um certo Dalla Picolla – parte da trama gira em torno de quem afinal de contas é Dalla Picolla, e como ele sabe dos segredos mais obscuros de Simonini (embora a realidade é que essa questão tem uma resposta bastante óbvia para quem está atento desde o início).
Outro fator positivo de O Cemitério de Praga são as descrições que Eco faz, tanto do espaço quanto – surpresa! – de comidas. Nos dois casos é quase possível se transportar para dentro da história (a abertura na qual o narrador descreve o lugar onde vive Simonini, por exemplo, é espetacular). Mas quanto à comida é um elemento importante porque faz parte de uma característica marcante de Simonini, um apaixonado pela boa mesa. A descrição dos pratos que devora mostra exatamente isso, o gosto que ele tem por comida, o prazer que tira disso. É um traço marcante de uma personagem que carrega consigo como outra característica um azedume que em alguns momentos beira ao cômico.
Talvez algo que se perca no fluxo da narrativa e que merece nota é a história de ódio que o livro carrega. O desprezo de Simonini por judeus, maçons e o que mais lhe surge na frente é, por si só, uma ótima alegoria para a estupidez do ódio que se nutre pelo desconhecido. Como esse ódio é em muito criado pela ignorância e, principalmente, como é perigoso. Acredito sim que O Cemitério de Praga funciona não só como um romance com uma trama eletrizante, mas também como um alerta, porque muito do comportamento de Simonini se repete nos dias de hoje.
Assim, O Cemitério de Praga não é exatamente um livro fácil, até porque a pluralidade de vozes, personagens e eventos acaba exigindo bastante do leitor. Mas é um desafio que é vencido de forma prazerosa, até porque Eco sustenta muito bem a narrativa, envolvendo o leitor no mistério e nos desdobramentos das ações de Simonini.
O Cemitério de Praga
Umberto Eco
Tradução: Joana Angélica d’Ávila Melo
480 Páginas
Preço sugerido: R$ 49,90
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