
Em junho de 1812 a Rússia é invadida pelas tropas napoleônicas, e se rende a elas depois de sangrenta e aterrorizante batalha. Depois de pouco mais um mês o Grande Exército de Napoleão se retira. Moscou está praticamente deserta e arruínada. No encalço das tropas invasoras segue um exército russo recomposto e organizado e sedento por vingança. Batalhas intensas são vividas na Alemanha. A perseguição segue até Paris, com as forças napoleônicas enfraquecidas, em março de 1814 os russos vencem e Alexandre I entra na cidade triunfalmente.
A Rússia a seguir não é próspera e sim corrupta. Ocorrem diversos movimentos revolucionários por todo país. Nessa Rússia conturbada e instável nasce, na cidade de Moscou, em outubro do ano 1821 Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski.
Cresce em meio a pobreza e presença comum de pessoas doentes. Seu pai é um homem amargo que trabalha em sanatório para pobres em Moscou. Imagine um sanatório para pobres naquela época! Esse pai é um médico e um homem raivoso. O tratamento dele é o pior possível. Dostoiévski amarga essa presença déspota de um pai incontrolável e raivoso. Seu mártirio é tão grande que alimenta um sonho, que o pai morra. Mas a desventura desde o início está ao lado de Dostoiévski, como se algo antagonista quisesse sugar todo o sofrimento em troca daquilo que o mestre recebera de Deus, quem morre primeiramente é sua mãe, Maria Fiódorovna Nietcháieva.
Com a morte da mãe o pai decide se ver livre do filho e o manda para uma escola militar de engenharia, em São Petersburgo. Estranhamente é entre cálculos matemáticos que Dostoiévski encontra-se com literatura e se encanta, O Despertar! Daí em diante lê tudo, Schiller, Dickens, George Sand e Balzac.
Mas quando o pai morre assassinado, em 1839 a consciência do jovem Dostoiévski deve ter pesado seguramente. A partir desse momento rebate esse sentimento com a pena da criação e começa a escrever: Bóris Godunov e Maria Stuart, seguindo a moda romântica e refletindo o problema com o pai, mas o jovem escritor, de agora vinte anos, desiste de ambas as obras.
Em 1843 termina os estudos e serve como alferes na seção de Engenharia de São Petersburgo. Nesse mesmo período traduz um livro que particularmente adoro, Eugenia Grandet, de Balzac, e a peça Dom Carlos, de Schiller. No ano seguinte esboça uma novela que descreve o ambiente medíocre em que vive, o que estará em toda sua obra madura no porvir, a novela tem o título emblemático Pobre Gente, e transforma-se num grande sucesso o que o faz escrever mais e com maior ambição. Mas a alegria do sucesso de seu primeiro livro tem que dividir espaço com o sofrimento de diversas crises de epilepsia. Já no ano seguinte, publica sua segunda obra O Duplo, diferente do primeiro, O Duplo, é esquecido absolutamente pelo público.
Nos meses seguintes autoridades literárias afirmam que não é um talento literário como imaginaram. Seu prestígio declina. Como muitos bons escritores Dostoiévski convive com dúvidas, reflete se é aquilo que sentiu ser. A inseguridade vem de fora para dentro, mas Dostoiévski é bastante jovem e sabe que muito há a se escrever, mesmo que não tenha tanta segurança se o deve fazê-lo.
Em 1847 passa a frequentar um grupo soicialista e revolucionário, mas em seu Os Possessos denuncia o clima de descompromisso e violência vigente entre os revolucionários.
No entanto, antes de romper com o grupo seu comprometimento já é público e notório. Não escapa da prisão, e é condenado a morte por fuzilamento.
O incrível é que Deus está para as horas fatais para ajudar os grandes escritores, e já no patíbulo um toque de clarim interrompe a execução. O auditor imperial anuncia que Nicolau I mudara de idéia e que a pena de morte fora comutada em prisão perpétua com trabalhos forçados na Sibéria.
Na prisão insalubre Dostoiévski convive com ladrões, toda a laia de criminosos e prostitutas, enfim a escória Russa, no entanto em seu livro Recordações da Casa dos Mortos, ele registra: " Posso testemunhar que no ambiente mais ignorante e mesquinho encontrei sinais incontestáveis de uma espiritualidade extremamente viva" Passa terríveis cinco longos anos de trabalho forçado, até ser incorporado a uma guarnição siberiana na posição de soldado raso. Nessa solidão gélida encontra um pouco de calor numa paixão inesperada, o entrave dessa afeição é porque a mulher é casada. E um dia suas eperanças de um romance com ela parecem se acabar, quando a moça se muda para outra cidadde. Mas ao final de alguns meses a mulher torna-se viúva e assim o escritor pode se aproximar e por fim, depois de tanto tempo, sentir algo que o possa reconfortar no mundo vazio que está condenado a viver. O casamento não demora a acontecer. E a partir de 1857 Dostoiévski torna-se um homem casado e goza um pouco da felicidade do matrimônio.
Mas a felicidade é efêmera, enquanto os problemas de Dostoiévski se agravam principalmente as crises de epilepsia, e acima de tudo o seu desgosto pela vida que tem. Então procura se abrasar em sua arte, é e nesse ponto em que acredito que os escritores de verdade se revelam, quando tudo parece desfavorável. Escreve então o romance, Recordações da
Casa dos Mortos. Nesse mesmo período espera ansiosamente o direito de voltar para São Petersburgo. O czar AlexandreII atende o seu pedido, e em 1859 o escritor volta à cidade pobre e desconhecido de todos.
Após de dois anos entre trancos e barrancos funda, junto ao irmão Mikhail, um periódico, O Tempo. No mesmo ano lança Recordações das Casa dos Mortos o que o traz novamente reconhecimento. Mas suas finanças continuam péssimas, e todo o dinheiro que ganha investe no jornal e na saúde frágil da mulher. Logo contrai empréstimos, joga e perde, acumula dívidas, e ameaçado por credores, deixa a mulher desventurada e foge para o exterior. Com recursos obtidos na Caixa de Socorros a Escritores Necessitados, veja só, tal instituição naquela época! Quem dera escritores brasileiros tivessem aonde recorrer no aperto... Enfim ele viaja por Alemanha, Itália , Suíça, França e Inglaterra, levando sob suas barbas a irrequieta e jovem estudante, aspirante a romancista, Polina Súslova, que posteriomente seria a musa inspiradora das personagens de O Jogador, O Idiota e Os Irmãos Karamázovi. Mas o grande escritor é péssimo com dinhro, e no jogo é um perdedor irrecuperável. Tudo que tem é gasto como também a penhora dos pertences da jovem Polina
De volta a Petersburgo encontra Maria morrendo e o jornal fechado por ordem do governo. Mas em 1864 consegue fundar um outro, A Época. Nesse mesmo ano morrem sua esposa e o irmão Mikhail, ficando sobre sua responsabilidade manter a cunhada viúva e seus filhos pequenos. Nesse período de angústia Dostoiévski recorre novamente a arte de escrever, e começa a redação de Memórias do Subterrâneo, obra que demonstra o amuderecimento literário, o estilo encontrado e o arrojo criativo.
Embora tenha encontrado a maneira de escrever que levaria o seu nome a imortalidade, Dostoiévski estava infeliz e solitário. Polina recusa seu pedido de casamento, enquanto ele se afunda em suas vulgares dívidas de jogo.
Mas alguém aparece em sua vida e enfim ele parece amar verdadeiramente e sentir-se feliz ao lado de alguém. A moça é Ana Grigórievana de 21 anos, uma estenógrafa que contratara para ajudá-lo na conclusão do manuscrito Crime e Castigo. Em 1867, aos 46 anos casa-se com ela. Meses depois sua dívida nos jogos ultrapassam um nível de segurança e ele novamente foge de seus credores, emigrando para Europa Ocidental. Um adiantamento do seu editor permite-lhe se estabelecer em Genebra. Mas o vício está nele e mais uma vez perde tudo, empenhando e depois tornando a não ter nada. Seu infortúnio parece não ter fim, sua filhinha , com três messe de idade morre, sua condição finaceira é lamentável e ele sofre da culpa de ser um homem sem controle.
Deixa Genebra e vagueia pela Itália. Tem a ajuda dos amigos e do editor que ainda lucra com seu nome e o manda algo para que possa manter-se vivo. Diante de sua situação delicada volta a escrever, incessantemente, para diversos periódicos e encomendas que acha detestáveis. O nascimento da filha 1869 o traz um pouco de alegria . Com uma animosidade renovada voltam á Rússia no de 1871, ano que publica OS Possessos.
Em 1874 publica O adolescente e Diário de um Escritor, e em 1880 o incrível Irmãos Karamázovi. Torna-se o Escritor da Rússia, o melhor e mais profundo redator do ambiente do seu país e da alma dos pobres conterrâneos seus.
O mestre tem enfim o reconhecimento merecido e a felicidade como homem que nunca parecera poder encontrar em sua vida sofrida e conturbada.
Num dia nevado, olhando a luz fria reverberando em montículos de neve nos vitrais o Gigante Russo fecha os olhos, enquanto o sangue esvai dentro de si. Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski morre.
Depois de uma vida tão difícil devemos desejar que descanse em paz, esse ser-escritor que
jamais abandonou seu ofício. Vendo tal trajetória perguntamos, nós escritores e amantes da literatura, " Até que ponto somos escritores e amamos isso de fato?"