gabo

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terça-feira, 25 de novembro de 2008

Inconsequente

Eu não tenho medo de nada

No eterno que me sinto

Frágil, leve, volátil recinto

Eu não tenho temores enquanto sonho

Torpor desmiolado o quarto adeja

Nem a manhã de tempestade abrindo a porta

Desabrigando o homem incomum dentro de mim eu temo.

Sou todas as vergonhas e todas boas sensações

Sou feliz por ser mortal e a infinidade de Deus

Resistir a erosão da presunção humana.

Sou feliz com esses olhos de ver a comédia exagerada

de nossas feições embriagadas.

Sou feliz por ser humano e humanamente saber-me bicho

Feliz pelos loucos varridos e o Sol que nunca falha e volta


quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Um escritor num quarto de terremoto







Dou meus olhos e digo que fui bom

O meu corpo macio num passado próximo

Agora treme sob suas mãos. O meu carrasco há

de cortar sem dor

Sem ódio, apenas esvaziar-me. Ao mesmo tempo

dar-me ao infinito.


terça-feira, 4 de novembro de 2008

Porque a vida é Vermelha


A fuga para o silêncio, o verdadeiro vazio onde o único encontro é com a paz

Deixar o mundo, toda a sua grande porção de imagens, sons. Saber o mundo

e saber dentro de si o quanto é intolerante. O cérebro frio e o espírito revolto

enormemente ansioso a se desprender da carne que aflige e leva a lugares

que não representam nada. Esse alumbramento altíssimo. Essa

determinância absoluta me fascina. Humanos voláteis, caindo para nos

mostrar que a vida é tão frágil quanto nossas arteriazinhas, nossos vazinhos

sanguineos. Que a vida pode querer mais de nós e se não a damos ela se rompe,

infla e explode. Esvazia-se no incógnito.


The Bridge é um documentário imponderável. Golden Gate é como uma imensa artéria irrigando os pólos da cidade. Nevosa, o grande Portal onde garções adejam, focas procuram cardumes e navios ribombam suas cornetas, e de repente uma vida desce a 40 pés de profundidade, um ser humano em busca da paz. Tentando resolver os problemas do mundo, mas o mundo é assim, dentro de nós, e não há nada que se possa fazer



segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O nascimento de um Rei



O céu era cinza e perfeito. Luz de lataria sobre a cidade pedra. Na artéria econômica do país houve um grito. Não fora de um executivo falido jogando o fardo e a farda de um arranha-céu. Não fora de algum orgasmo secreto entre tantas paredes. Não fora nenhuma ave migratória, como um carcará buscando sorte em Sampa. O grito era um berro, a nota explosiva e inaugural da vida. Um Sol surgindo sobre as dissonâncias da megametrópole. O grito era raiva do mundo que não conhecia . A pequena criatura gritava com os olhos cegos da luz branca da manhã paulistana. A criatura era um leão humano de forte rugido. Contorcendo-se em seu berço provisório de acrílico. Outros o escutavam, mas não diziam nada. A pequena criatura voltou os olhos para a parede de vidro. Olhou para alguém e se calou. Por alguma relação sutil e mágica a criatura percebeu que ali estava alguém que era parte de si próprio. Deu uma espécie de primeiro bocejo e depois dormiu. O corpo pesado não conhecia a gravidade e seu sono não foi tranquilo. Os bracinhos e as perninhas assustavam-se facilmente. Mas em um momento sorriu, prova de que lembrava de seu bom tempo. No escuro e quente mundo em que boiou. Escutando uma voz de algum lugar, uma voz que o fazia sentir vontade de rir. Era estranho ele em seu sonho eterno, enquanto outros bebês principiavam a berrar, como se houvessem sido incentivados por ele. Era uma manhã cinza e perfeita para um filho nascer.