
Antes de Nascer o Mundo, o título dado pela Companhia das Letras me agrada, embora todas as outras nações de língua portuguesa concordaram com Jerusalém. Prefiro o título brasileiro para o livro do moçambicano Mia Couto. O livro fala da distância de um mundo antes do tudo ser, do ermo que habita a condição humana e também de seu calor verdadeiro. Começa assim : "A primeira vez que vi uma mulher tinha onze anos e me surpreendi subitamente tão desarmado que desabei em lágrimas. Eu vivia num ermo habitado apenas por cinco homens. " Isso me lembra Gabriel Garcia em Cem Anos de Solidão, mas Mia Couto respira naturalmente a linguagem de Guimarães. Lá do outro lado do Atlântico num continente onde a literatura emerge da terra, tanto mais para um autor sensível como Mia Couto. A poesia, a graça, o jogo implacável de setenças visuais dá a Mia Couto a posição de contador encantado de histórias, a história com o tempero raro hoje, o da narrativa, viva, visual. Seu regionalismo é universal, como aprendeu com Guimarães Rosa, isso com certeza não é uma comparação. Gumarães é o mestre absoluto, tanto que Mia Couto usa apenas pinceladas Rosaneanas, não exagera no tempero pronto e sim prepara tudo com simplicidade e com muita habilidade. Mia Couto agrada, traz prazer e conta uma história onde se pode encontrar a humanidade verdadeira e desacreditada por muitos de nós.