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domingo, 24 de maio de 2009

IMPRESSIVO







A arte plástica é de Kim Molinero


Não se sabe como, de onde, e em que tempo ao certo se passou.Tudo ficou registrado na mente daqueles que a viram. E agora ciciam dolorosos como coveiros que amam os mortos que enterram. Os olhos desses homens e mulheres refulgem como alucinados por uma acória irremediável. Suas almas permanecem sempre numa espécie de baixa-mar, de pouco volume, e jamais sentirão qualquer coisa além de estarem perdidos.Ela surgiu primeiramente numa manhã nublada. As pessoas autômatas e afeiadas esperavam o coletivo. Embora, alguns disfarçassem sua aparência, todos sentiam-se no fundo bereberés que comeriam a bosta dos grandes para se sentir parte daquilo. Ela passou balançando o corpo jovem de carnes cheirosas sobre ossos dançantes, em frente a eles, e tomou a atenção imediatamente.E quando percebeu isso, rodou como uma bailarina, num giro inusitado e paralisante. Os cabelos negros como o negrume do cu da noite sem estrelas e sem luas, agitou o ar como tinta esguichando no vento lés-nordeste da manhã. As bocas com peças careadas se abriram, a carne amassada e fria se aqueceu, mochilas com frases incoerentes em inglês, pastas de couro falso, envelopes pardos, tudo isso foi ao chão. De repente todos eles tornaram-se humanos e gostaram de ser humanos. A saia volátil subiu e num movimento hábil ela a recolheu, elegantemente, junto aos seios. Joelhos estremeceram, os poros dos paus foram abertos, vaginas salivaram. O corpo luscente era insuportável em sua beleza, o sexo implume como uma lucarna de luz rosa, bafejando um cheiro inebriante. As bocas se abriram como de uma matilha faminta e baixaram sob a cintura da moça, que na mesma elegância abriu as pernas e riu da fome daqueles pobres. Ela sorriu continuamente, a lambidas, sugadas e mordidas dos mais afoitos.Logo havia trânsito, pessoas que pulavam para fora dos ônibus, deixando-os vazios. Muitas cabeças apontavam como de crianças em parques de diversão. Ela conseguiu chegar a um carro e com a elegância de um guepardo esticou-se de lado sobre o capô. A bunda branca e perfeita, empinada sem vulgaridade, naturalmente, e ainda assim mostrando aquela círculo rosa, um ó chamando a multidão. E eles vieram lutando entre si, mas mantendo ela como uma santa no andor. Colocaram-lhe na boca, no o e na fresta brilhante e cremosa. Os que conseguiam isso riam com os olhos vidrados, um olhar de quem tem seu lugar ao sol.Logo ela estava repleta de sêmen e sorria ainda. As pessoas estavam fartas, sentadas no chão contemplando-a com amor. Ela pulou do capô, ajeitou a roupa com a diversão de uma menina que levara um tombo, lambeu os lábios e a ponta do nariz, e saiu ante ao burburinho aflito da multidão extenuada e perdida, e nunca mais foi vista nesse lugar.

terça-feira, 12 de maio de 2009


Alguns livros chegam como se o mar os houvessem trazido a nós. Este em particular é fruto do mar do sentimento do mar, da poesia, do pronfundo incógnito da alma. Os trabalhadores do Mar de Victor Hugo que leio na formidável e confiável tradução de Machado de Assis. É um livro onde espaços externos amalgamados com espaços e vazios internos se lançam sobre nós. Sua beleza sonora, sua plástica e seu traço romântico nos fazem alienar-se no tempo. Toda literatura está ali contada de cabeça a cabeça, de personagem a personagem, no entanto tudo é real, sensitivo e vivo. Fico emocionado quando pessoas mortas me tocam mais profundo que todas as figuras físicas que andam por aí no brilho midiático, que a mim trazem uma única sensação: de chiclete duro e saliva amarga, não a gosto, só incômodo de presença. Mas figuras como Victor Hugo e seus salutares personagens nos trazem sua essência como se dela pudêssemos mesmo fazer proveito, uma solidariedade sentimental inigualável. E agora, meus amigos, estou lá num canto da velha Normandia, a minha volta o ar está repleto da presença do autor e então penso maravilhado: Isso é a Eternidade.