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segunda-feira, 29 de junho de 2009







É estranho quando uma figura como Michael morre. Sua contagiosidade passa por muitos como nula, mas a fama de sua figura é como um vírus resistente que não afeta o organismo de todos mas sim a memória. Eu não me lembro de ter me empolgado com Michael, mas sua existência não me passou desapercebida e sua figura parece mais clara e próxima que a de minhas boas primas de Minas Gerais, e olhe que as toquei e as beijei talvez... Por isso é estranho, não há sentimentalismo e sim estranheza. Algo oblíquo e com um final amargo de desesperança.


Talvez Jesus fora uma espécie de Michael, sua fama repercutiu por seus feitos, naturalmente, mas muito mais pelo poder de comunicação e depois a bela imagem sofrível empregada pela Grande Firma Católica. A imagem unida ao som faz o mito. Jesus teinha as parábolas e Michael os hits e imagem nem precisamos falar. Era um personagem real que superou muitos seres irreais. De longe superou Branca de Neve dos irmãos Grimm, mesmo Frankestein de Mary Sheley fica pra trás de longe. Se procurarmos um ser semelhante a Michael encontramos Michael certamente. Mas talvez haja um exemplo próximo o fantástico Edward Mãos-de-Tesoura de Tim Burton. Não só pela superficialidade, mas pelo aspecto frágil e ao mesmo tempo ousado, pela bizarra aparência e o comportamento infantil.


Para os que confundem Michael a verdade é que ele foi um verdadeiro mito, cheio de excentricidades oriundas de seu interior confuso, cheio de talento evasivo, desses que se espalham pelo mundo como a peste negra. Esse homem estranho sofreu a metamorfos e encontrou talvez imbecibilidade e solidão. O rei do pop. O menino negro que perdeu a raça, perdeu o sexo, como numa vontade de se tornar anjo morreu, normalmente, como todos morrem desde o início de nossos tempos. O sol continuará a brilhar e muitas pessoas vão lucrar alto e agradecer ao último mito musical por ter morrido no momento exato para que o show business de sua imagem e som prospere. O mito tem que saber morrer também, é isso o mais incrível neles.

sábado, 20 de junho de 2009





Não sei. Olho essa face jovem, esses olhos repletos de noites guardadas, secretas. Fumaça de diversos odores, vozes em sua maior parte felizes, de todos os cantos. Estamos sentados esperando que algo de novo aconteça e nada falamos. É mais um dia, já perdemos o encanto inaugural de Deus diante desse fenômeno, mas ela sabe que em mim há ainda encantamento. Sei porque me olha desse jeito. O dia em que me falou a boca de um escritor só criará suspiros bons entre minhas pernas, isso foi bom, me fez sorrir me fez fumar cigarros e querer engolir o mundo todo por amá-lo.Estamos ali, na velha estação da Luz, é um bom lugar. Uma estação onde podemos deixar a imaginação ir. Vamos pegar o trem, um vagão rico e estofado para nós. Vamos nós amar nele, criar manchas irreparáveis. Vamos trazer ao mundo um novo ser acima do amor de Cristo, um amor insuportável que faça com que a humanidade se esqueça de sua civilidade e torne-se natural. Vamos! Mas os olhos dela continuaram quietos, num silêncio de catedral. Eu não falo, eu escrevo, eu rio até, mas não falo. O trem que chega não parece sustentar os meus desejos. Estou alto nos desvãos do sonho e dos delírios. Ela me olha com um sorriso esgotado. Isso me faz agir abrindo os braços e apertando ela depois, costelas, pulmões, a pele se estica. Na próxima estação descemos as pessoas olham ou não. Ao entrarmos no corredor estreito que dará ao apartamento dela a pressiono na parede. Diga! Diga! A boca de um escritor só criará suspiros bons entre minhas pernas. Obrigado. Um cão ladra, o ar está macio, há uma paz de aquário vazio em tudo. Quando no ar explode a sensível bolha de gozo acredito em Deus, acredito em mim e amo a vida.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

GRANDE PAU







- Papai, quem descobriu o Brasil?


O pai fez uma careta porque não sabia mentir.


- Ninguém sabe ao certo, filho.


O menino fez outra careta.


- Mas papai todo mundo sabe que foi o Cabral!


O pai fechou o facho e se dirigiu para o menino:- Filho, eu sei que gosta dos portugueses, mas quem descobriu o Brasil foram os espanhóis.


O menino olhou pro pai e o achou maluco.


- Mas todo mundo fala português aqui, Pai.


- Sim, porque aquela raça de merda foi a única a querer alguma coisa daqui.


- E o que eles quiseram , pai?


- O pau do Brasil. É, os portugueses levaram muito pau do Brasil. Mas tudo tem seu preço e muitos deles foram comidos.


- Comidos, Pai?!


- Sim, levaram pau e depois foram comidos e depois comeram também.


Ah, ah ah...ai...ai...


- Ô, Antônio, o que tá dizendo pro menino, ô xarope.


- É história. Esse menino quer saber de tudo, pergunta pra Deus rapaz.


- Ô Antônio!


- É o Google, vai lá que ele responde tudinho.


- E o que eu digito, Pai?


- O quê? O que quer saber?


- Quem descobriu o Brasil.


- E você não sabe?Pedro Álvares Cabral.


- Mas o senhor disse...


- Ah, mas isso é o que aconteceu há muito tempo, se você colocar no trabalhinho a anta da professora te dá pau


.- Para de falar de pau, Antônio!


- Eu estava falando de pau brasil aquela hora, e de antropofagia e de... ah, deixa quieto.


O menino encolheu os bracinhos e se retirou como um índiozinho.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

ENLATADOS



Sabe quando se pensa em leopardos das neves enlatado com a multidão egoísta e proletária de trens do metrô. Talvez você não saiba, mas a manhã paulistana é uma das manhãs mais medíocres do mundo.Gente aos borbotões. Olhamos aqueles braços humanos, aquelas cabeças com cérebros de atum...Putz! Da vontade de ser o leopardo das neves no silêncio assovioso da montanha gelada. Ô se dá! De certo modo sou como ele, frio, no alto de minha pessoalidadeUm escritor não escapa de si, nem confundido em meio a multidão espremida, sufocada e ruim. O escritor não foge de si, mesmo que interprete com toda a habilidade. Às vezes me sinto um Peter Parker, um cara escondendo uma máscara no bolso, mas é o contrário.Nossas estações de metrô são realmente muito limpas, mas tudo está mal e sujo, tudo parece errado naqueles cérebros de atum. Não dá pra engolir e a gente engole mesmo assim, só pra rir de tudo que vê e vive, por quê? Vive de verdade um leopardo das neves.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

VOLÁTIL







Não percebe que o mundo azul é teu


E em seu sangue há ventos distantes


Nas suas mãos o vôo secreto?


Ascende o teu corpo de plumas


Porque se acreditar à sua volta


No capricho dos rastejantes


Terá amputada junto ao corpo


A liberdade de seu vôo, ave.