gabo

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sábado, 29 de maio de 2010


Sinto escapar de mim, recusar-se a compartilhar a minha caminhada incerta. Uma essência que imaginei ter nos bolsos. A minha existência insignificante. Por mais que toquem no ar, e invadam a comodidade de nossa solidão, o som de toda autoajuda, essa música descontrolada, insensata, nada me enche.. Os versos incoerentes do bem estar. Tudo se perde nitidamente A  fartura de existir para dentro de uma finitude ignorada esvazia-me. Viver. Viver. Tudo isso é estranho. On the road sem graça. Não temos uma diferença enorme para o povo da guerra. A morte também não nos incomoda mais. A nossa consciência existencial abdicou a razão, ou tornou-la uma velha  muda e inútil. Nossa razão sempre foi um tênue fio estendido sobre uma fúria antiga correndo como um rio de sangue. Vivemos e aceitamos. Uns reclamam, matam-se, essa revolução mortal e efêmera e limpa. Felizes são os vermes que recebem carne nova. Não viemos com qualquer compromisso, nós os inventamos. Ou aceitamos a família, o poder novo de consumo, as novelas do Manuel. Ou vamos nos reunir e cantar hinos infantis e louvar a um cadáver de dois mil anos. Ou escrevemos como intelectuais da Europa antiga. Isso é lindo. Mas temos que deixar a sessão. Lá fora está a rua. Ela é sempre a rua. E nela há tantas pernas como braços indiferentes. Uns comem bem, gostam de graça e música e matam milhões. Que faria se acordasse na pele de Stálin? Seria um pacifista? De todas essas nossas intenções, e escolhas, e certezas, devemos saber que não somos o centro do que vemos, mas sim de nós mesmos. Haverá o amor e o ódio daqui há dez mil anos. Aqui ou bilhões de kilometros a frente. Ou haverá o simples repouso da matéria em sua plenitude, o silêncio e a luminosidade. E isso basta por hoje.