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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O PERFUME DE SUSKIND





A fétida Paris é muito bem resgatada no imaginário de Patrick Suskind, em seu mais conhecido trabalho, O Perfume. O trecho abaixo nos dá uma dimensão irônica e definitiva do cheiro e de que tudo aqui estará ligado a sentir odores e a buscar odores.
Na época a que nos referimos dominava nas cidades um fedor dificilmente imaginável para o homem dos tempos modernos. As ruas tresandavam a lixo, os saguões tresandavam a urina, as escadas das casas tresandavam a madeira bolorenta e a caganitas de rato e as cozinhas a couve podre e a gordura de carneiro; as divisões mal arejadas tresandavam a mofo, os quartos de dormir tresandavam a reposteiros gordurosos, a colchas bafientas e ao cheiro acre dos bacios. As chaminés cuspiam fedor a enxofre, as fábricas de curtumes cuspiam o fedor dos seus banhos corrosivos e os matadouros o fedor a sangue coalhado. As pessoas tresandavam a suor e a roupa por lavar; as bocas tresandavam a dentes podres, os estômagos tresandavam a cebola e os corpos, ao perderem a juventude, tresandavam a queijo rançoso, leite azedo e tumores em evolução. Os rios tresandavam, as praças tresandavam, as igrejas tresandavam e o mesmo acontecia debaixo das pontes e nos palácios. O camponês cheirava tão mal como o padre, o operário como a mulher do mestre artesão, a nobreza tresandava em todas as suas camadas, o próprio rei cheirava tão mal como um animal selvagem e a rainha como uma cabra velha, quer de Verão quer de Inverno. Isto porque neste século XVIII a actividade destrutiva das bactérias ainda não encontrara fronteiras e não existia, assim, qualquer actividade humana, quer fosse construtiva ou destrutiva, qualquer manifestação da vida em germe ou em declínio, que estivesse isenta da companhia do fedor.
Na primeira parte até que o protagonista assassino e gênio que busca por toda vida um perfume sobre todos os outros um perfume capaz de torná-lo um verdadeiro Deus. Essa busca pelo poder da fragrância sublime é a única ambição de Jean-Baptiste Grenouille. E para isso ele precisaria extrair de virgens sua essência, seu aroma único.
O livro segue muito bem até sua metade, quando Grenouille sai de Paris, depois perde a tenacidade e graciosidade narrativa, para ter que concluir o trajeto da trama. Depois para o final volta a ter qualidade e expressividade. É um livro que vale à pena de qualquer forma. Que apenas por deslizes de estrutura do autor não é perfeito.

Deixo um link, caso queiram ler em pdf, ou conhecer para comprar um impresso.